sexta-feira, 6 de junho de 2014

SEIO SECO

E assim roda a roda viva
E viva a vida que a roda criva
Experiências exigidas
Retornos e partidas
Do mesmo seio seco vive esse poço de vidas
Lutas na solidão escondidas
Pequenos perdões perdidos
Ilusórios sentidos
(1986)

EXISTE ALGO SERÁ?

Caminho em busca de algo que paralise o mundo por alguns segundos
Busco um chá
Um patuá
Ou a gira de Iemanjá
Busco o que eu não queria
Mas não posso desistir de buscar
Sinto que é preciso sentir
Existe algo, será?
(1986)


EU ME MODERO PORQUE SE NÃO EXPLÔDO

Misture as formas
Encantador neon
Usamos órgãos claros
Para anestesiar nossa intenção
Não paremos no tempo
Não é nunca
Nunca não.
(1986)

Misture as formas

JESUS

Nú sobre a cama do medo
E já sem segredo medir, prever
A distância e o crer
A luz fosca ofusca e seduz
Sem pensar no sinal da cruz
Por falar, falar em Jesus
Sem temer
Sem tremer.
(1986)

CHACAL

A solução está nas inversões
Pilotando balões a gás
Para chutar aviões
E sentir muito ódio, sem paz
De antigo namorado
Queimar corações em brasa voraz
E na fumaça ficar pirado
(1985)

Homenagem a CHACAL "Oh como é bom bailar baganas no pensamento nhoque da média luz"

GERAÇÃO 85

Meu sangue corre numa velocidade incalculável
Enquanto permaneço frágil, estável, inabalável
Pernas balançam impulsionadas por um motor imortal
Olhos arregalam muito diante de quase sempre nada
Boca procura os dedos e os dentes as unhas
Nariz imóvel e super presente
Movimento tímido de curtos ombros
Palavras cortadas
Muitos assombros
Ouvidos atentos
Medo de novos tombos
Tento inventar contos
Acabo pelos cantos da mentira
Busco falsa explicação
Interrompo a razão
Aumento a interrogante interrogação
Que a geração carrega
Que as gerações carregarão.
(1985)

ENTRE O SER E O ESTAR

Cada grito escondido
É um apelo perdido
Entre o bem e o mal

Cada vidrado olhar
É um sonho parado
Entre o ser e o estar.
(1985)

SEM PERCEBER

E ele me disse chega de se esconder do mundo
E eu me senti mudo
E ele me disse olhe e fale muito
E eu me senti diminuto ser
E ele se foi sem querer
E eu o mandei embora sem perceber.
(1985)

MESA SEM COR

No som magnífico do nada
Há um grito assustado, embriagado de dor
Conversas alucinadas, poucas risadas
Discursos vazios, pessoas sentadas ao redor
De uma mesa sem cor
E do nada fez-se tudo
Dessa mesa ergueu-se um muro
De muita comida e pouco futuro.
(10/11/1985)

A MOCINHA E A VELHA

Casemos com a realidade
Ou nos bem demos com a magia
Pois cada homem representa um louco
Que perambula no dia a dia

Percamos nossos olhos nessa louca correria
E risquemos endereços de velhas tias
Pois a cada ano as sombras aumentam
E todo querem eternos aqueles momentos

Entre a colcha formada de linha e esterco
A mocinha e a velha perdidas no tempo
Há uma nota escondida que virou vento
E uma luz já perdida no firmamento

Pois que cada dentre
Esqueça a sua existência
E que todo entre
Disfarce franca eficiência.
(1985)

TALVEZ

Sem voz e sem rítmo
Sem um plano fixo
Sem caminho nítido
É tudo tão nebuloso
Quando isso passará?
É tudo tão difícil e moroso
Quando irei avançar?
Quando o quando tornar-se de vez talvez e for preciso parar.
(09/11/1985)


EXISTIR E MORRER

Menos absurdo que meias palavras
Mais ou menos nulos
Mesmo assim parados
São os calmos beijos
Com sabores adocicados
São os tontos gracejos
Com estalos ironizados
Misto de dó e dor
Esse místico amor
Dá para perceber
Que não é preciso dar
Que á tão preciso receber
Pra poder entender
Pra parar de querer
Existir e morrer.
(1984)

BARULHO

Noise de pensar demais causa crise na fala apressada

Embala estranhamente o cansado andar

Barulho interno assemelha-se ao inferno

Intensifica-se, agiganta-se, assusta

Com o calar do barulho

Fuja para a sala o forte, para o bar o fraco

Pega na mão o frasco, logo

Sinta o quente da cor vermelha corrente

Não se espante com o barulho do seu líquido sangue

Injete a droga e faça barulho, se drogue

Se jogue do andar mais sensacionalista

Não se julgue fatalista

Não fuja da conquista do barulho causado

Sinta-se agora desesperado com o barulho que há

Com o barulho que está

Dentro do seu barulho.

(1984)